10 de fevereiro de 2010

O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lirio Ferreira (Brasil, 2008)

É difícil falar deste filme sem simplesmente repetir boa parte do que diz o Francis no texto dele na Cinética, porque parece bem claro que o grosso dos problemas do filme está resumido ali. Eu só levaria mais adiante a questão de que esta fratura entre vários diferentes filmes que existem dentro do mesmo filme aqui é acentuada por duas pulsões que vêm de fontes diferentes. De um lado, a gente vê o mesmo Lírio Ferreira que co-dirigiu Cartola, e que busca sempre que possível ousar esteticamente dentro do formato tão careta a priori do documentário biográfico. Aqui isso fica especialmente claro nas várias inserções de cenas raras da história do cinema brasileiro (trailers, cinejornais, trechos) que atendem principalmente a um desejo dele de mostrá-los, muito mais do que do filme de prescindir deles (e nada contra, são momentos fortes pra quem gosta de cinema nacional). Do outro lado, tem todo o discurso afetivo-pessoal da produtora e filha do biografado, Denise Dummont, que assume um esquisito papel duplo mal resolvido de objeto do filme (dá entrevista inclusive ao lado da mãe), e sujeito do mesmo (os entrevistados se dirigem sempre a ela, deixando ver quem capitaneava os processos de conversa do filme). Me parece claro que toda fratura exposta no filme vem destes dois desejos firmes e fortes que em nenhum momento quiserem se curvar ao outro, e que com isso acumulam belos momentos, que no entanto fluem com a graça de um elefante por uma montagem que não chega a conseguir fazer deles um discurso só. O filme tem charme e considerável emoção, mas é episódico, cansativo, digressivo, um tanto perdido. Em vários sentidos, prefiro isso ao documentário certinho e sem alma, mas tb seria falso dizer que se trata de um filme que dá conta de suas missões auto-impostas.
(visto no Arteplex Rio, sala 5)

Trash Humpers, de Harmony Korine (EUA, 2009)

Não é por mera coincidência que pensamos no John Waters dos anos 70 (o de Desperate Living e Female Trouble principalmente) vendo este mais recente filme de Korine. Existe antes de tudo no filme um desejo de desagradar, de ser grotesco e grosseiro, de eventualmente forçar o espectador a desviar o olho da tela. Mas existe ainda (e é aí que se aproximam) o desejo ainda mais forte de propor com esta sociedade paralela desregrada e doentia um espelho que reflita sobre a falta de nexo da sociedade estruturada e "bem resolvida". O filme de Korine tem um quê de desejo de choque gratuito (a maneira como a violência entra no filme, por exemplo, é bem boba), um outro tanto de auto-reflexividade que o simplifica demais (o discurso na ponte, principalmente, mas tb as brincadeirinhas visuais com o VHS), mas nada disso tira a força presente no que ele tem de melhor, que são as cenas mais desconectadas de qualquer lógica, na figura mesmo destes quatro seres com seus rostos bizarramente deformados e claramente mascarados, nas suas vozes, expressões e canções distorcidas. Sem dúvida Korine se refastela um pouco demais no seu status de enfant terrible auto-criado, mas sem dúvida também é preciso dizer que ele faz aqui um filme como nenhum outro no cinema mundial atual.
(visto no cinema 1 do CCBB-RJ, projeção em DVD, dentro da mostra Zona Livre)

4 de fevereiro de 2010

Lula, o Filho do Brasil, de Fabio Barreto (Brasil, 2009)

Fica bem claro (pelo menos para mim ficou) ao longo da projeção que o grande termo para definir este Lula é mesmo "funcional". Tudo que compõe o filme está lá seguindo a lógica deste termo tão caro ao mundo contemporâneo - a começar, aliás, pela sua própria existência, que sentimos ser toda baseada numa lógica de marketing e de exploração de um momento histórico (e nisso não deixa de ser o mais irônico de tudo que o filme não tenha... er... funcionado nas bilheterias). É o termo funcional que explica inclusive a correção "estética" que o filme todo possui: nada dos constrangimentos recentes de um Bela Donna, de um Jacobina, de um Caravaggio. Com bastante dinheiro em caixa, Fabio Barreto chama uma série dos mais competentes técnicos brasileiros (do roteiro à finalização de som e trilha, passando por cada um dos outros aspectos técnicos), e realiza de maneira absolutamente correta cada passo da jornada de Lula, do interior à Vidas Secas ao quase documentário à la anos 70. Cada cena e personagem é estudado para significar algo exato para o desenvolvimento e mensagem do filme ("a jornada de um brasileiro heróico"), e estão na tela o tempo preciso para isso. Tudo está ali, no seu lugar. Só que a ironia é essa: ao tentar o melodrama clinicamente estudado, Barreto mata aquilo que é a chave do sucesso de um bom melodrama, ou seja, o descompensado, o exagero, o excesso, a falta de pudores. Lula se deseja então um melodrama científico. O resultado não podia ser outro: um filme que assistimos a 200km de distância, quase com uma caneta e prancheta na mão marcando "ok" pra cada passo estudado do personagem/roteiro. Ou seja, extremamente funcional porque deseja servir pra todos, o filme, obviamente, não serve pra nada nem ninguém de fato.
(visto no Cinemark Botafogo sala 2)

Tiradentes em um parágrafo

Envolvido na Mostra de Tiradentes de diferentes maneiras (como curador de curtas, mas tb como editor da cobertura da Cinética, mediador de debates, mas principalmente espectador obsessivo das sessões), era impossível ter tido tempo pra escrever sobre cada filme visto, como propõe este blog. mas talvez valha quebrar a lógica e dar então um parágrafo à mostra em si. No que tange os curtas, claro que eu sou bem suspeito pra dizer algo, então digo apenas que dedicarei textos inteiros a alguns dos meus favoritos do ano numa pauta que a Cinética coloca no ar até o começo da semana que vem. No que tange os longas, já conhecia uma boa parte do Festival do Rio do ano passado, e entre eles e os que não conhecia (a maioria do Aurora) me parece que foi, tendo eu meus favoritos e "desfavoritos" como sempre, o conjunto mais firme de proposições instigantes de cinema que já vi por Tiradentes. Os debates filme a filme nos dias seguintes foram quase sempre bem fortes, possibilitando do todo das conversas que saíssemos com uma boa série de coisas a desenvolver a partir das individualidades e do conjunto - não é pra isso que pode servir uma mostra, acima de tudo? Finalmente, como disse no Facebook logo ao chegar, Cabeça a Prêmio, Morro do Céu, Terras, Estrada pra Ythaca, Belair e A Falta que Me Faz são filmes que não esquecerei tão cedo (com Esperando Telê, Insolação e Os Inquilinos me deixando vários outros pontos firmes na lembrança), mas Pacific me parece agora, numa primeira impressão, o filme a não se perder de vista. A maioria destes espero rever assim que puder, e aí dedicar pelo menos um parágrafo aqui a eles.

14 de janeiro de 2010

Não!!!

Este blog não morreu cedo de inanição. Eu que passei 2 semanas em merecidas férias longe do cinema e dos filmes (embora não das leituras sobre eles). Semana que vem a coisa volta ao (a)normal.

1 de janeiro de 2010

Entre Deus e o Pecado (Elmer Gantry), de Richard Brooks (EUA, 1960)

Assim que acabei de ver Elmer Gantry, fui dar uma pesquisada rápida e uma coincidência incrível se revelou: o livro de Sinclair Lewis foi escrito/lançado exatamente no mesmo ano (1927) que Oil!, de Upton Sinclair. E daí? O fato é que ao longo do filme de Brooks me veio à cabeça justamente There Will Be Blood, o filme de PTAnderson baseado no texto do Sinclair número 2 (e certamente a performance principal de Burt Lancaster aqui tem reflexos no que Daniel Day-Lewis fez), e depois disso descobrir esta simultaneidade não significa absolutamente nada, certamente, mas foi uma surpresa e tanto. Elmer Gantry é um filme hipnótico que consegue, pro meu gosto, dar o passo que o filme de PTA não conseguia: ousar uma enorme paródia/resumo de uma América prensada entre a hipocrisia e a ignorância das fés capitalista e religiosa, e ainda assim dar vida a seus personagens pra além de construções cinematográficas. Há uma tal vida nas pulsões (sexuais, inclusive, fortíssimas) e no desespero de todos os personagens, que vão levantando véus depois de véus de carências e calhordice, onde ao mesmo tempo em que não sobra pedra sobre pedra das instituições (não só a igreja leva porrada aqui, mas também a polícia, os políticos, a imprensa, etc), sai do meio daquilo tudo uma crença grande no ser humano apesar e principalmente nas suas falhas. Nesse sentido, é a relação de admiração mútua entre o jornalista Jim e o insano Elmer que dá o diapasão do filme: nenhum sentido de ingenuidade nem de calhordice natural, apenas o entendimento do jogo que cada um joga, que nada tem de puro ou bem intencionado per se. Um filme de tantas camadas e cenas de embasbacar, que faz realmente pensar que em 1960 Hollywood estava num outro lugar.
(visto no TCM)

Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski (Brasil, 2009)

O filme pintou em mais de uma lista de melhores do ano por aí, geralmente sob as platitudes de sempre do tipo "uma aula de história essencial", como se o cinema fosse pra ser substituto pedagógico de alguma coisa. Claro está porém que o mais interessante a se falar e diferenciar no filme é mesmo um tratamento bastante inusual do material sonoro e visual, ainda mais em se tratando de "tema sério"- mas sobre isso acho melhor indicar o texto do Rodrigo, que vai fundo nos pontos principais. Para além do que ele disse, porém, eu queria adicionar (ou reforçar) duas coisas que acho bem fortes no filme. Primeiro, a inteligência com que percebe que dar a voz aos dois lados não é tanto questão de justiça e sim de ser a melhor maneira de desnudar um pensamento tão estúpido que precisa ser lido de um papel (como é o caso do Brilhante Ultra, esta besta). Neste processo, o filme cria um ou dois efeitos puramente cinematográficos (pois de montagem e superposição de idéias via som/imagem ou cortes) que são das mais fortes acusações anti-ditadura que se viu nas telas (e muito mais eficazes que aquele batido clipe de imagens de resistência com musiquinha ufanista, francamente dispensável). Segundo, vale destacar que o filme é uma iniciativa absolutamente pessoal, como se vê pela ausência de qualquer logomarca no começo. Isso não é um elogio automático de nada, mas acho que é algo que precisa sim ser destacado como aspecto importante do filme. Que o Chaim Litewski (que não conheço nem nunca tinha ouvido falar) tenha levado um filme como este adiante do começo ao fim por sua conta (com o apoio firme dos Asbeg, Pedro e José Carlos) é uma coisa bem impressionante e significativa. Eu até acho que o filme tem muito de "importante aula de história" e servirá bem pra fins acadêmicos em DVDs por aí, mas vê-lo no cinema é bom por muita coisa que não seja isso.
(visto no Unibanco Arteplex Rio, sala 3, em projeção Rain)