25 de junho de 2011

Vers Mathilde, de Claire Denis (França, 2004)


Pode-se sintetizar o cinema todo de Claire Denis dizendo que ele filma a dança dos corpos no mundo, e por isso mesmo fazer um filme sobre o trabalho de uma coreógrafa seria apenas natural. No entanto, Vers Mathilde suplanta totalmente a simplicidade dessa afirmação, exatamente por reafirmá-la com uma força quase impressionante de "statement". De fato, talvez não seja absurdo até vermos este filme, junto com Vendredi Soir (imediatamente anterior), como dois trabalhos em que Denis revela o ápice da autoconsciência sobre suas capacidades e objetivos como realizadora - atingidos, talvez, em Trouble Every Day, imediatamente anterior. São filmes que, sem perder a potência, podem ser lidos como quase auto-paródicos, ainda que de maneira muito diferentes - e nisso o fato de que Mathilde Monnier seja tão parecida fisicamente com Claire Denis apenas serve como ironia máxima. Nesse sentido, talvez ganhe uma força muito maior a sequência em que Mathilde sussurra para a câmera (e para a presença em tela de Claire Denis, pela única vez no filme) a sua própria crise como criadora - que pode ser, então, jogada para Claire. Como não se repetir, como reencontrar a surpresa, como não seguir o caminho fácil - é o que se pergunta Mathilde, e é o que parece se perguntar Claire nesse momento de sua carreira. É essa pergunta a que parece mover o filme, e a resposta que encontra está no trabalho - e nisso a dança acaba assumindo um papel muito potente de imagem desejada da arte: aquela que requer do corpo o máximo esforço para se atingir um resultado.
(visto na sala 1 da Caixa Cultural-RJ, em 35mm, dentro da mostra Claire Denis: Um Olhar em Deslocamento)

2 comentários:

gabriel martins disse...

esse filme é lindão

Eduardo Valente disse...

é uma forma mais sucinta de dizer o mesmo. hehehe